9.9.08

Promover a independência - parte 2

Nos textos anteriores temos falado sobre temas básicos da SSVP: a Missão Vicentina, os Pobres de hoje, a Promoção dos assistidos. A questão agora é o que podemos realmente fazer para que a SSVP trabalhe sempre melhor, para que seus membros estejam comprometidos com a missão, para que as necessidades dos assistidos sejam atendidas de forma eficaz, não apenas eficiente?

Eficiência ou Eficácia?
A estrutura e a organização da SSVP no Brasil e no mundo, são pontos muito fortes de nossa instituição, que surpreendem pastorais, empresas e outras entidades sem fins lucrativos. Sem dúvida somos muito eficientes em nosso trabalho. Ser eficiente é "fazer certo as coisas" (reuniões, eventos, visitas, arrecadação e distribuição de bens). Já ser eficaz é "fazer a coisa certa". É encontrar soluções definitivas. Podemos ser eficientes sem sermos eficazes, quando temos que ser as duas coisas. Entendeu?

No texto anterior (a "parte 1"), falamos sobre o jeito como as visitas são feitas, o relato nas reuniões (eficiência) e como isso resulta em assistidos sendo "desligados" das conferências, em vez de serem promovidos de sua situação (eficácia).
O confrade Tiago Félix, do Rio de Janeiro-RJ, diz que "a conferência se tornou restaurante popular, (...) este processo vicioso tem tornado as famílias assistidas dependentes"; "é preciso traçar um plano de promoção para cada família", comenta o confrade Jefferson, de Maringá-PR, em discussão na internet.
Então agora vamos falar de prática. Como poderia ser este planejamento para promover as famílias? Aqui vão algumas sugestões:
1) Começar com uma sindicância bem feita: levantar os problemas da família ou indivíduo e principalmente as causas deles.
2) As informações precisam ficar registradas de forma diferente de hoje (os livros-ata são como diários das conferências, mas são difíceis para acompanhamento e busca de informações), então o ideal é ter um fichário ou similiar.
3) Apresentada a situação da família em reunião, deve-se traçar um plano para tentar solucionar cada situação-problema, fixando datas e "atacando" uma de cada vez.
4) A evolução do plano deve ser registrada no fichário para o acompanhamento e, após solucionados os problemas, pode-se comparar a situação da família antes e depois de ter sido adotada.

Resolvidos os problemas básicos, eles possam ter o mínimo de independência e possam ser promovidos.
Parece receita de bolo? Sabemos que os casos reais que encontramos sempre parecem muito complicados, mas utilizando alguma forma de planejamento, com certeza fica mais fácil e rápido promover de verdade do que sem planejamento algum.

A idéia é criar um processo de promoção (eficiente e eficaz) que possa quebrar o ciclo de assistencialismo, que faz os filhos dos assistidos se tornarem futuros assistidos das conferências.

13.8.08

Promover a independência - parte 1

Todo vicentino sabe que o objetivo de assistência às famílias carentes é a sua Promoção. A partir do momento quando o indivíduo ou a família passa a ser assistida por uma conferência, todos os esforços são dirigidos para este objetivo, certo? Nem sempre. Parece comum que os vicentinos apenas realizem a visita semanal (de extrema importância para o acompanhamento da situação dos assistidos), para depois relatá-las nas reuniões de conferência. A promoção é um conceito vago para a maioria de nós.

Há exceções sim, porém na grande maioria dos casos, é isto o que ocorre: após período de acompanhamento – esperando-se que o próprio assistido modifique sua condição – a conferência decide por "promovê-lo". No máximo, um desligamento temporário, pois o mesmo irá procurar auxílio de outra conferência rapidamente.

A verdade é que não sabemos o que é e como atingir a tal "promoção" e agimos da forma como "aprendemos" no dia-a-dia. Afinal, como promover verdadeiramente nossos assistidos?

Na Regra da SSVP podemos encontrar diversos pontos para refletir, vejamos alguns:
• Os vicentinos ajudam os pobres a se tornarem independentes e saberem que podem mudar seu destino (Parte I, item 1.10).
• Restituir a dignidade e promover resgate da cidadania, através da justiça social (Parte III, artigo 1º e artigo 60).

Com base apenas nestes tópicos de nossa Regra, podemos deduzir que devemos fazer mais do que suprir as necessidades materiais das famílias (assistencialismo).

Com a modificação constante da sociedade, as necessidades e as dificuldades enfrentadas pelas pessoas também são diferentes da época em que a SSVP foi fundada ou mesmo de quando foi introduzida no Brasil. Assim como as formas de enfrentar e solucionar estas dificuldades também se modificaram.

Precisamos utilizar todos os recursos que nos estão disponíveis para alcançar a verdadeira promoção (= independência) dos assistidos. O assistencialismo – socorro, auxílio emergencial – deve ser a primeira etapa no processo de geração da independência.

Para isso, a Regra também nos diz o seguinte:
• A SSVP deve sempre se adaptar às mudanças dos tempos e da humanidade e às novas formas de pobreza (Parte I, item 1.6).
• Presta ajuda imediata, mas também busca soluções de médio e longo prazo. Não somente alivia a miséria, mas também busca descobrir as estruturas injustas que a causam e contribui para sua eliminação (Parte I, item 7.1).

Há ainda outros fatos que devemos levar em consideração sobre a necessidade de evoluirmos nossa forma de trabalhar: os diversos programas assistenciais do governo (federal, estadual e municipal), de outras instituições e ONGs e das empresas. Como continuar arrecadando e distribuindo alimentos e outros bens se nossos assistidos já são atendidos (e às vezes muito bem) por estes programas? Nosso trabalho está ameaçado ou será uma oportunidade para finalmente avançarmos para formas mais profundas e efetivas de promoção?

A boa notícia é que já estão em andamento, em nosso Metropolitano e em outras regiões do país, novas iniciativas neste sentido. Projetos e atividades vicentinas, em parceria com entidades públicas e privadas, que visam dar condições para que pessoas carentes possam alcançar sua independência.

As mudanças surpreendem, assustam os que vêem a antiga SSVP e não têm a Missão Vicentina em mente: a caridade promocional. E esta discussão tem que acontecer em todos os níveis da Sociedade.

10.6.08

Quem são os pobres de hoje?



No artigo anterior, o tema foi a missão vicentina, que podemos resumir como: "servir o pobre, buscando sua promoção social e espiritual". Vem agora a segunda questão, que traz mais luz ao propósito desta missão: quem são os pobres de hoje?

Há anos atrás, me lembro de que as famílias assistidas por minha conferência eram, em sua maioria, moradores das zonas rurais, que perdiam seu trabalho, nas plantações e criação de animais, e também aqueles indivíduos já idosos, impossibilitados de garantir seu sustento por conta própria. Estes últimos ainda existem e são acolhidos pelas conferências vicentinas, que devem, sempre que possível, buscar os meios necessários para que essas pessoas tenham acesso a seus benefícios de direito. Já no primeiro caso citado, as famílias naquela época já eram vítimas das mudanças da sociedade, rápidas demais para que pudessem se preparar e sobreviver. Isso continua acontecendo até hoje, afetando pessoas de todas as idades, regiões, posições sociais etc.

A sociedade se modifica e sempre se modificará, por este motivo é que já sabemos que "pobres, sempre os tereis...". Sempre haverá pobres para que cumpramos nossa missão, mas eles não podem ser sempre os mesmos! O trabalho vicentino precisa ter começo, meio e fim (a promoção).

Entenda que, nos dias de hoje, por causa da velocidade das mudanças, todos (todos!) podem se achar em situação de miséria (material ou espiritual), por um motivo ou por outro e então, se tornarem dependentes da solidariedade de terceiros.

Por isso, o trabalho vicentino é o de enxergar o pobre como seu igual, com as mesmas necessidades, capacidades e sonhos. Nas palavras de um outro confrade "devemos ser facilitadores da promoção", servindo de apoio e ponte entre nossos assistidos e objetivo da promoção. Mas isso só é possível quando nos dispomos verdadeiramente a conhecer as dificuldades daqueles que nos foram confiados para, por meio de ações planejadas, enfrentar cada uma delas como obstáculos a vencer. Visita a visita. Reunião a reunião. Com fé, suor e criatividade podemos vencer com os pobres!

Deixo as perguntas para reflexão: você conhece profundamente seus assistidos? Sabe que dificuldades ele possui e que podem ser solucionadas, para sua promoção?
E o que é a promoção nos dias de hoje? Este será o tema do próximo texto. Até lá!